sexta-feira, 29 de julho de 2016

Reclusa


Reclusa

Que coisa estúpida ser eu!
Estou de novo sangrando pelos dedos.
Que coisa estapafúrdia te sentir em segredo.
Estou renegando os meus medos.

Reclusa, sob essa redoma de esconder-me de ti,
eu vou evaporando sem restar nada de mim.
E negar-te, é tudo que me restou da armadura,
de defender-me debalde dessa funda fissura.

Tu me feres e me curas com a medida do mesmo olhar,
onde me perco e me acho, e não quero me encontrar...
Tu és o ócio do meu coração vagabundo
que inventa de doer todas as dores do mundo.

Eu te odeio, na mesma mentira impetuosa e traiçoeira
que me faz ser toda tua sem que eu queira.
Eu te amo, esse amor inútil egoísta, desmedido e sem eco,
e no entardecer de cada dia eu sigo sangrando, mas a tudo nego!

Lilly Araújo – 29/07/16

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Pátria



 
Pátria

Oásis para mim é porto passageiro.
Sou filha do deserto,
com boca de devorar areia,
tenho pés de camelos obstinados,
e olhos de serpente solitária.
Fiz das dunas minha pastagem,
o resto, é apenas miragem.

Lilly Araujo 22/07/16

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Closer
















Closer
 
O ato de escrever para o poeta é arriscar-se demais. É desnudar-se para todos sem armadura nenhuma que o proteja. 

Deve-se, portanto ter alguma cautela. Escolher um local adequado para suas aparições. Um palco de preferência bem alto e pouco iluminado. Porque se expor para o público é mesmo muito arriscado.
Mas pior ainda que o ato de expor-se em meio a uma multidão, é fazer isso para apenas um par de olhos. Porque a primeira opção, apesar de parecer mais amedrontadora à priori, não é nem de longe, o risco maior, e é com certeza menos perigosa que se mostrar para um único espectador. 

Porque na multidão, há muitos seres com gostos diferentes. Uns hão de amar, outros hão odiar e outros ainda apenas não saberão opinar. Mas se você passa a se apresentar para um único ser... Ah, é aí então que começa a se perder.

Porque perto demais se lhe aparecem todos os defeitos ocultos. Cada ruga e prega que a maquiagem tentava esconder. Aparecem os sons descompostos, e às vezes indecorosos. Aparecem-lhe inclusive as partes pudendas tão censuradas e repugnantes. Perto demais aparece tudo que se escondia antes. Mostra-se o que não se deseja e não se pede.

Perto demais: O poeta fede!


Lilly Araújo - 13/05/16

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Destino


Destino

Andava pelos pastos, descalça de tudo, e em tudo pisando com os poros de minha alma, sorvendo os aromas da terra úmida e grama esmagada, abraçando a relva com os dedos dos pés a sentir o seu afago, com cheiro de canela e mel, e gosto de algodão-doce.

O céu se ruborizou diante do nosso amor; e encarnado, o sol se despediu no silêncio que se deve aos amantes.

A noite chegou chovendo pirilampos em forma de diamantes. Pontinhos luminosos pousavam nos meus cabelos até coroar-me perante a lua. 

Eu era tua. Só tua.

As estrelas cerziam constelações de amor sobre nossos corpos felizes. 

Dançamos a dança da chuva de olhos que se fundem entre sussurros de eternidade. 

E eu caminhava pelos pastos, descalça de tudo. Despida de medos e suspeições, respirando promessas de vinhos de uvas sovadas em ritual solene sob o peso de teus belos pés. Servidos nas tuas mãos de anjos, feitas para me acariciarem de dentro para fora. Roçando tua barba nas paredes de meu interior.

E eu caminhava pela relva com cheiro de paraíso, e pirilampos choviam sobre mim, e cantavam sobre nós a sinfonia de estrelas. E meus pés tocavam tudo, o chão, a terra, o rio, o mar os oceanos... e sobre a relva eu fui tua. E sob a lua nos amamos.

Findo o pasto. Apagados os pirilampos. Dormido as estrelas e recolhida a lua. Nós, exaustos do momento de eu ser tua, adormecemos...

Quando a aurora chegou, eu já havia partido. É assim o destino de quem tem asas.

Lilly Araújo – 15/07/16
(19:19h)


sábado, 9 de julho de 2016

Entrevista de Lilly Araújo para o jornalista Fernando Coelho.


Uma poeta de vigor. Porque consegue um diálogo extremo com a sua solidão. Permite-se invadir pelo frio tenso da alma quando as paredes desabam, e permanece apenas ela, a mulher escritora, e a proteção da poesia. Como ela diz, “considera-se poeta não por vontade, mas por obrigação de ser o que é”.
Melhor deixar que ela mesma diga do que é feita, como faz e o que ama fazer.

(FERNANDO COELHO) Reli o livro Magma. De minha dileta amiga, poeta Olga Savary, a maior tradutora brasileira de Pablo Neruda. Olga também traduziu o monumental Confesso que Vivi do poeta chileno. Em alguns momentos, você me reconduziu a poemas de Olga. De onde vem o som do seu coração?

(Lillly Araújo) Acredito que o poeta não se sabe definir. Pelo menos eu não sei. Pelas minhas lembranças, eu já nasci assim, com um som atormentando meu peito desde muito nova.  Eu sempre me preocupei com questões que eram alheias às demais crianças e sempre fui excessivamente sensível. Sofria com ansiedades crônicas dignas de adultos, com direito a febres emocionais e uma cobrança exacerbada de todos os meus atos e produções, auto imposta. Sempre levei a vida muito a sério. A sério demais para meu gosto. Acho que envelheci cedo.
Por outro lado, também vivia muito compenetrada nas mínimas sutilezas e delicadezas do meio ambiente, coisas que os adultos se esquecem rapidamente, assim que deixam de ser crianças.
Amo tudo! Coelhos, cães, gatos, morcegos, aranhas, cobras, borboletas (mesmo em fase de lagartas), lagartixas, plantas, rios… amo particularmente água, com uma conexão inexplicável e terna.
Então, eu penso que nasci poeta, bióloga e criança-adulta; e hoje sou uma adulta-criança-velha. Porque essas sutilezas, que só os pequenos sabem enxergar ainda estão impregnadas em mim como se quase nada tivesse se desgastado durante o passar dos anos. E ao mesmo tempo tenho uma alma velha. — O poeta já nasce com a alma antiga —, não é isso que dizem?
Sou uma antítese e também uma metamorfose ambulante. Acho que a biologia me definiria como um ‘híbrido’. Mas sei que não sou o único ser assim, creio que é coisa da ‘espécie’, somos assim mesmo, nós os poetas.
Deve ser desse barulho todo aí que vem o Som Do Coração.

A sua poesia parece-me uma represa. A represar vida e morte. E, ao mesmo tempo, um átomo de desespero solto. Que emoção é esta? A represa, fechada e em ebulição, e o átomo, são convergentes em sua poesia?

Leia o restante da entrevista no site do jornalista/poeta: Fernando Coelho

domingo, 3 de julho de 2016

Faces de mim - Parte II

 
>> Se desejar ler a Parte I primeiro clique aqui



Faces de mim - Parte II

Na rosa não sou a pétala,
eu sou espinho.
Do beija-flor
eu sou o medo,
não sou o ninho.

Ninguém me sabe.
Eu sou a tempestade,
doce ou amarga,
e o tsunami.

Eu sou o vulcão. Eu sou o vulcão.

Eu sou lava e entranhas,
e labaredas, e rochas flamejantes.
Não sou mulher,
eu sou um troço que ruge.

Eu sou instante. E já passei.

Eu não sou pedaço e nem metade,
eu sou o que sobra,
as migalhas que caem da boca
desajeitada do glutão ensandecido.

No silêncio da noite
eu sou o apito.
O estalido,
a goteira que não para,
a porta que range.

Eu sou a dor do estômago do insone.
A acidez descontrolada,
a luz que não se apaga,
os olhos que não fecham,
os dedos que não cessam.

Eu sou a alma. Eu sou a alma.

Nos sonhos, eu sou pesadelo.
Sou também a falta de sonho,
o nada, o vácuo,
a tristeza do vazio.
Não sou terra firme.

Eu sou o rio. Eu sou o rio.

No leito eu sou a pedra pontiaguda,
que entra nos pés do descalçado.
Eu sou a ferida, sou o sangue,
e sou a dor.

Eu sou os olhos empapuçados,
inchados do estupor.
Sou o pedinte de amor.

Eu sou areia no olho,
e o sal na água do sedento.
Não sou rebento.
Do dente-de-leão, eu sou vento.

Estou ventando. Estou ventado!

Na fábrica eu sou a greve,
sou a descrença,
a mão que não quer se mover,
a marmita,
que se esqueceram de aquecer.

Sob os pés do trabalhador,
sou o andaime que balança.
Eu sou a dança.

Sou a sapatilha de ponteira
que aperta os pés da bailarina,
Eu sou o torturador
e a futura joanetes.

Eu sou o asco. Eu sou o nojo!

E amanhã eu não sou nada disso,
na minha metamorfose,
— eu sou o riso!

Lilly Araújo
18/05/16
(04:08h)
 
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