quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Décimo segundo andar

 
Décimo segundo andar

No vão entre a saudade e o décimo segundo andar,
eu me despenco em busca de algo que nunca saberei,
e me destroço no percurso da queda,
desfazendo-me em mil pedaços de carnes
apodrecidas  por cada dor sentida.

No vão que me convida todo dia,
com som de flauta doce a encantar-me os ouvidos,
com o tom hipnótico como de lábios de sereias,
eu me deixo levar e salto sem vontades de ficar.

E no caminho da queda,
a ventania me lambe por inteira,
e gozo em espasmos que nunca senti...
É o prazer que busquei por toda existência!

No átimo entre a queda e o paraíso,
eu desperto outra vez,
e desse sonho resta-me apenas isso:
— saudades do além, do que não é,
do que não sei que quero, mas quero!

Resta-me também a doçura de odores
liquefeitos no ar, desse prazer inominável
que é deixar-se seduzir
pelo vão do décimo segundo andar
e apenas saltar.

Lilly Araújo- 29/09/16
09:14h

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Das vezes de esperar



 
Das vezes de esperar

Vinte velas acesas para iluminar o meu sonho,
vinte vezes eu olho na tela do celular buscando em vão,
na aridez da descompostura da minha cervical
que me entorta todas as juras que nunca cumpro a mim mesma.

Pela vigésima vez, só esse ano, eu me embriago
de absinto e mel, como se o paladar
de qualquer um deles fossem-me a mesma coisa.

Vinte vezes eu olhei o horizonte na esperança de ver você chegar,
entre as brumas mal dormidas e sorrisos amarelados
desfeitos no brilhar de uma aurora boreal.

Vinte vezes ou um pouco mais,
e nunca, nunca em qualquer uma delas,
meu peito teve um instante sequer de paz.

Lilly Araújo - 27/09/2016
08:59h

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

TEMPUS FUGIT - Rubem Alves




TEMPUS FUGIT

Eu tinha medo de dormir na casa do meu avô. Era um sobradão colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos nos caixilhos das janelas, pátios calçados com pedras antigas... De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio... De dia, ele estava lá também. Só que era diferente. Manso, tocando o carrilhão a cada quarto de hora, ignorado pelas pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pêndulo regular era seu coração que batia, seu ressonar, e suas músicas eram seus sonhos, iguais aos de todos os outros relógios. De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: "Tempus fugit". E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcação sem pressa, esperando a música do próximo quarto de hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa não era coisa daquele tempo da minha insônia de menino. Vinha de muito longe. Tempo de musgos crescidos em paredes húmidas, de tábuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, dos escravos que ensinaram para as crianças estórias de além-mar "dingue-le-dingue que eu vou para Angola, dingue-le-dingue que eu vou para Angola" de grandes festas e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadência... O relógio batera aquelas horas — e se sofrera, não se podia dizer, porque ninguém jamais notara mudança alguma em sua indiferença pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilhão excessivamente lento se tomava num pedido de socorro: "Não quero morrer..." Aí, aquele que tinha a missão de lhe dar corda — (pois este não era privilégio de qualquer um. Só podia tocar no coração do relógio aquele que já, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) — subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mágica. O tempo continuaria a fugir... Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saíam, O passado só sai quando o silêncio é grande, memória do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relógio, com seu pêndulo e carrilhão, me chamava para si e me incorporava naquela estória que eu não conhecia, mas só imaginava. Já havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na própria magia do espaço da casa, fosse nos velhos álbuns de fotografia, homens solenes de colarinho engomado e bigode, famílias paradigmáticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiéis esposas de pé, ao seu lado, mão docemente pousada no ombro do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passa¬do, deles, não se sabendo nem mesmo o nome. "Tempus fugit". O relógio toca de novo. Mais um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir... Sentia que o relógio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou. Depois o sobradão pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-bálsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relógio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha que não suportou a melodia do "Tempus fugit" pediu que ele fosse reduzido ao silêncio. E a alma do relógio teve de ser desligada.

Tenho saudades dele. Por sua tranquila honestidade, repetindo sempre, incansável, "Tempus fugit". Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem estórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, para não me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estória da Alice, que olhava para seu relógio, corria esbaforido, e dizia: "Estou atrasado, estou atrasado...

Não é curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de 5. Silvestre?
Correr para chegar, aonde?
Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão.
O sol e as estrelas entoam a melodia eterna:
"Tempus fugit".
E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o tenor, e abafamos o ruído tranquilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões...
Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice:
"Estou atrasado, estou atrasado...
Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria:
Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será...

Rubem Alves

sábado, 17 de setembro de 2016

SOLIDÃO, O VERBO DA POESIA- Orelha do meu livro



SOLIDÃO, O VERBO DA POESIA

H. D. Thoreau jamais apiedou-se das gentes em sua opcional solidão às margens do rio Walden: “é uma noite deliciosa, em que o corpo todo é um sentido só e absorve prazer por todos os poros”. Abarrotado de impetuosa solidão em seus naufrágios, lacerava a sociedade com sua premonição implacável. Mergulhando no rio extenso de solicitudes de Lilly Araújo, invado a minha própria e perecível ilusão de tentar compreender a poesia, para além de Octavio Paz. Terrível, à semelhança de uma adaga de emoção golpeando o peito, a poesia de Lilly Araújo sobrepõe-se às feridas da alma e, ela mesma, encarrega-se de nada curar, além de provocar, e assumir, na boca do vulcão do dizer e sentir ou sentir e viver, a inaudível missão da poesia: emanar sentença certeira que sai, vergada, da flecha do coração. E volta, ao mesmo ponto, tingida do sangue dos olhos dos outros, de cada um. O poema é um raio de amor. A poesia de Lilly Araújo, amanhecida, anoitecida, disfarçada de encantamentos, desaba, como tempestade de indubitável temeridade e beleza, na alma de quem procura ouvir a voz de uma solidão que pertence ao mundo todo. Esta, uma poeta que mexe, no fundo das estrelas, com o bruxo sentimento do amor, desviado, transviado, enlouquecido, desbravador e terrível, mas humano, necessário, apaixonante, desbocado em sua maneira de tocar e doar-se. Esta poeta, nascida dela mesma, ou quase de tudo o que vê e cheira, traz no colo a transfusão vital do expor e escrever poesia: viver, à exaustão, o amor, o relacionar-se com o tempo, com o cotidiano, com a natureza, a partir de uma simples xícara de café quente. Lilly e o amor e a poesia, comem-se numa intimidade perigosa, devastadora para quem deles se aproxima por acaso. E dela, para sempre, ficará refém.

Jornalista Fernando Coelho - Facebook

http://www.fernandocoelhoescritor.com.br/poesias/lilly-araujo-a-terrivel-adolescencia-do-amor/

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Meu lixo


Foto: Artista VikMuniz

Meu lixo

Reviro meu “lixo seco” reunido no cesto do quarto:
três caixas de tintas de cabelo,
cada uma de uma cor diferente;
um cálice descartável de ‘vinho de santa ceia’,
que é o líquido para assepsia do espírito;
dois frascos de álcool a 75 por cento,
que é pra matar os germes sobre essa carne;
um monte de rascunhos de poesias já digitadas,
que são a delação não premiada
de cada um de meus demônios.
Esses, que são todos imortais!


Lilly Araújo
13/09/16 16:49h

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Redenção



 
Redenção

Quero minha nudez sob o chuveiro frio
nessa manhã congelada e solitária,
ter os poros eriçados
e sentir a pele ser ferida por mil navalhas.

Quero a água percorrendo
meus pecados e lavando-me toda.
Quero a redenção dos pobres perdidos,
e ver apagar de sobre mim
todas as digitais.

Vou deixar fluir junto aos fios gélidos
meus fluídos quentes,
os salgados, os doces os amargos.
Tudo goela abaixo e ralo a dentro.

E depois de exaurida,
esquecida de todos os vestígios de outrora,
vou fechar os olhos na aurora,
fazer dela minha madrugada que não veio,
onde a cama será o leito da redenção,
e os lençóis o manto santo desse corpo pagão.

Lilly Araújo – 02/09/16
07:40h
MyFreeCopyright.com Registered & Protected