domingo, 13 de novembro de 2016

Apenas um easy rider à procura dele mesmo



 Ele ama motocicletas. Ama dominar os cavalos de aço à procura de seus eus fragmentados pelas estradas. Não importa a distância: ao menor indício de pedaços que lhe faltam ele vai lá e confere. Às vezes se engana, mas na maior parte das tentativas encontra o que procura. A liberdade de ser e estar com quem, quando e como quiser (isso ele nunca esconde ) o faz um homem feliz. Tem medo de aranhas, cachorros e questionamentos. Ama gatos.

Acelerou 2400 km das terras frias do sul ao planalto central da Terra de Santa Cruz. Já tinha andado sob os céus do entorno de Brasília anos antes, respondendo a um chamado telepático cigano , mas desta vez ia buscar mais um pedacinho seu que estava pronto para encontrar. Entre aviões de guerra, motoclubes e arroz com pequi aquele motociclista que se recusa a ouvir a razão ( e tem dado certo há 52 anos... ) se deixou levar pela ventania causada pelos poemas , suor, endorfina e adrenalina daquela bela mulher que era ele . Se entregou sem medidas. Ela viu o mar (da praia e dos olhos dele), e viu que era bom. Ele voltou para casa mais completo, com as marcas do destino tatuadas no coração. 7.919 km depois, a história continua? Ele não sabe, ela não sabe.

“... o amor é um filme, e Deus expectador...” (Lirinha, Cordel do Fogo Encantado ).


Balneário Arroio do Silva, 11/2016.

 
 
 
 



  
 
 

 
  
 
 
 

  

 



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Primeira vez na tua língua


Primeira vez na tua língua

O mar me lambeu hoje
com a intrepidez daquele que sabe o que quer,
e o discernimento de oferecer
o que mais deseja uma mulher.

Lambeu-me entre as pernas,
num súbito atrevimento desejado,
mas não antes de olhos nos olhos
e um beijo profundo,
e promessas de um hoje terno e absurdo.

O mar lambeu-me entre as pernas,
e eu gozei ostras sem pérolas,
porque agora não havia sofrimento.
Não nesse exato momento.

Lilly Araújo
Arroio do Silva- 04-11-16


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sou filha da mãe



 
Sou filha da mãe


Sou filha da mãe.
Filha da puta,
que puxa a carroça encarcada pra um lado
por levar todas as cargas,
e enfrentar vários sois ainda por vir,
e que se esconde no céu em cada lua nova
para chorar baixinho enquanto finge sorrir.

Eu sou filha da mãe!
Filha da luta!
Que limpa com uma mão o resto de parto,
e com a outra, mexe a massa do salgado,
pra não deixar morrer de fome
nenhum dos vermizinhos que pariu.

Eu sou filha da mãe gentil,
que com a cinta na mão, tantas vezes,
me deu o brio na cara que muitos não têm,
que me deixou cicatrizes profundas na alma,
mas que hoje, entendo muito bem.

Eu sou filha dessa mãe,
que não sabe escrever poesia,
a não ser com suas mãos calejadas,
e sua coluna entortada
pra ganhar o pão nosso de cada dia

Eu sou filha dessa deusa,
dos cenários de suores e labuta,
que de puta, santa, recatada e do lar,
é tudo que desejo me tornar.

Lilly Araújo - 30/09/16
(09:40h)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Adjetividades inúteis



 
Adjetividades inúteis


Dispenso comentários sobre mim
— Linda, inteligente, educada!—
foda-se você e seus adjetivos vazios
e mais broxantes que sexo com DST.
Eu não preciso me medir a partir de você!

Eu não sou nada, não quero ser nada,
e a partir da convicção que tenho de mim
em relação ao universo sem finitudes,
passei a limpo milhares e milhares de minhas atitudes.

Foda-se tantas coisas!
Rasguei as velhas cartilhas.
Não quero, e não vou nunca mais,
ser “bela, recatada e do lar”.
Vou ser o que quiser a cada dia,
e todo dia vou mudar de ideia se eu gostar.

Não há mais ilusões dentro de mim,
pois degustei cada uma como aperitivo
de um copo de cerveja gelada.

A minha verdade nua,
tão nua como desejo estar,
baila livre com suas pregas, peles,
dermes e epidermes,
suores e líquidos hormonais.
Não sou o que fui, e esta,
partiu pra nunca mais!

Fiquei cética, fria; cínica talvez,
mas entendi por fim,
que a vida é um tabuleiro de xadrez.

Pra você que me olha,
e tenta me domar, cuidado
para que o seu coraçãozinho não enfarte,
porque minha próxima jogada
é xeque-mate.

Lilly Araújo- 04/10/16
12:36h

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