quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Poeta do Poeta














POETA DO POETA 

O choro do amor possível é diferente! 
Diferente do choro desesperado, 
Num peito ressentido de um coração vazio. 
Diferente sim,  mas não menos dolorido, 
não menos rasgado, nem menos invasivo. 

Amar para um poeta é o verbo ser.  
Ele ama todas as coisas impossíveis. 
E de repente, o universo prega uma peça, 
E nesse amor correspondido o poeta se vê perdido.  
Perdido apenas não: — desconstruído. 

Aho poeta sabe amar o mar, 
os rios, poças d’águas, igarapés e oceanos.  
Amar o céuVia Láctea, e estrela cadentes. 
O poeta ama os insetos, e os duendes. 
Ama o folclore e os botos.  
E tudo isso ainda é muito pouco. 

Mas o poeta se apaixonou por outro poeta! 

O amor os trapaceou. 
Bom, isso eu já não posso te explicar querido leitor. 
Só sei dizer que hoje sou risos molhados, 
Sonho acordado, e dores de amor. 

Lilly Araújo  
10-01-19

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Tudo lhe dói



























Tudo lhe dói

O poeta nunca pertencerá a um único amor,
porque o amor está em tudo,
e o poeta ama tudo e a tudo pertence.

Ele vê tudo, sente tudo e tudo lhe dói.
Ele é casado com a lua e amante das estrelas,
Sente-as todas, a todas ama, num amor que lhe corrói.

O sol lhe dói os olhos,
a noite lhe dói os ossos,
e a madrugada lhe dói a falta de ambos.

O poeta ama a lagartixa, que de cabeça
para baixo que não cai do teto.
Aliás, ele ama e ouve todos os bichos
da floresta, do cerrado, da caatinga...
Ele repousa com alma contente
na rede abraçada a qualquer galho,
seja qual for o cenário.

O poeta ama a onça pintada,
a pinta na cauda do tucunaré,
ele ama ser rio,
ainda que seja apenas igarapé.

O poeta é um ser descontente e dolorido,
Dói-lhe tudo, e a tudo abraça.
A tudo agradece e a tudo sorri.
Ele, porém, nunca está satisfeito,
porque de tudo tem fome,
e a vastidão mora em seu peito.

Se no árido, sente falta da umidade,
se na água, o seco lhe da saudade.
Se no mar, ele não se contenta,
quer também ver a sereia.
Se no raso, que ver o profundo,
e se profundo, sente falta da areia.

O poeta é um ser descomunal,
sente tudo, a tudo ama e tudo lhe faz mal.
Tudo lhe dói. E nada lhe basta!
O poeta é apenas um escravo e mais nada.

Lilly Araújo 30/05/16


*Fernando Coelho é esse poeta descomunal!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O QUE SE PODE SER



















O QUE SE PODE SER

E se você chegar amanhã,
e amanhã já for tarde demais?
E a esperança tiver virado desespero.
E o brilho do olhar tiver se apagado
num eclipse lunar,
numa noite onde não se ouvem mais estrelas,
porque todas, igualmente, se emudeceram.

E se você retornar para o porto
para descobrir, que tanto tempo depois,
já não há mais onde se ancorar ?

E se meu destino for sempre o mar?
Esse mar bravio e triste, onde naufrago
todos os dias com vontade de morrer,
porque do outro lado da morte espero,
enfim, saber o que se pode ser.

Não sou nada! Não sei ser nada!
e nem sonhos os tenho mais.
O poeta estava errado!!
Todos meus antigos sonhos
se converteram apenas em “ais”.

Lilly Araújo
12/12/18

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

POESIA INOPORTUNA

















POESIA INOPORTUNA

A Poesia bafejou na minha cara
o azedume do seu mau hálito.
Quis que eu acordasse,
nem sei porquê,
contrariando meu desejo de dormir.
(Dormir para me salvar)

A poesia insistente,
inoportuna, inútil
sempre quer falar.

Ela subiu no telhado,
olhou os carros multicoloridos
contrastando com seu humor
em preto e branco.

A Poesia quis pular,
para ver se também eu
saberia voar.
Mas eu não soube.

A poesia sempre me sacaneia.
Com o olhar de “cigana
oblíqua e dissimulada”,
me traí todos os dias!

Eu pulava sempre do telhado,
e não tinha asas,
como as que tinha a Poesia.
— Mas que diabos, ela me fez,
que eu nunca morria?

Lilly Araújo
-29-11-18

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O RENASCIDO



O RENASCIDO

A carne de Rosa era dura!
Eu sentia quando brincava de mordê-la.
Era uma carne meio diferente,
e alguns diziam que nem era de gente.

Rosa, até no jeito de andar se destacava,
tinha umas ancas largas
e uma bunda obtusa que balançava.

Ah, Rosa! Eu me recordo muito claro
das vezes em perdia uma pétala no caminho,
entre a sua casa e o trabalho.

Mas a carne de Rosa era dura!

Ela tinha um olhar duro também.
Umas mãos duras, e dedos duros.
Um olhar perdido
como quem sonha com algo muito distante.
Mas o olhar de Rosa era macio
quando me esfregava com sabão,
e a fala dela ficava entre dura e zombeteira,
quando me mandava esfregar atrás da orelha.
— Seu encardido! — dizia, me dando um gostoso sermão.

Seus dentes eram tão brancos,
mais brancos que próprio branco,
quando ela sorria enquanto me enxaguava.
E das poucas vezes em que isso acontecia,
de vê-la sorrir assim,
podia mesmo jurar que ela nem era gente,
igual ao que muita gente falava.

Foi na ladeira entre a rua quarta,
e a terceira,
que eu vi Rosa como ela era,
pela primeira vez,
em sua forma verdadeira.
(Rosa não era mesmo gente!).

Um barulho estrondou, e
ninguém sabia ao certo de onde vinha.
Agora tinha era pavor nos olhos de Rosa,
e eu, que era muito jovem para entender,
só ouvia sua prece citar nomes desconhecidos.
“Obá, Ogum e Oxossi” — Gritava.
— Salva-nos, oh, deus da guerra!

Enquanto o medo ia virando terror,
acho que ouvi-a clamar por um tal de Xangô.
Nunca vim a saber depois,
porque gente branca
tem medo dos ‘deuses dos pretos’.
E eu jamais pude entendê-los.

Mas a carne de Rosa era dura!
Dura dura dura, que nem um couro de javali
que o meu pai costumava citar em suas caçadas.

E sua mão, que era preta,
preta preta que nem breu,
puxou minha carninha branca
para dentro do seu abraço
e tremendo toda se encolheu.

A carne dura de Rosa parou todas as balas,
e de dentro dela, nascia pela segunda vez,
eu!

Lilly Araújo
01/11/18

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