sexta-feira, 18 de março de 2016

O POVO - Rubem Alves


O POVO - Rubem Alves

Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção.". Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

http://rubemalves.com.br/site/". Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.


terça-feira, 15 de março de 2016

Profundamente



Profundamente

Não me venha com galanteios se você pertence à essa geração rasa, que não consegue “pegar” mais de duas vezes a mesma “mina”, sem enjoar da cara dela.
Não meta as caras comigo, só porque está entediado, e sua criatividade não vai além de dar um “rolê” por aí para ver se fisga alguém. Eu não sou peixe pra cair na sua rede. Na verdade estou mais é pra sereia. Cuidado com meus encantos! É você quem pode acabar fisgado.
Não puxe conversa comigo, nem ao vivo e nem nas redes sociais, só porque achou minha aparência boa. Eu sei que sou bonita, mas meu querido, a beleza acaba num piscar de olhos, basta um acidente, um incidente, uns quilos a mais, ou apenas o agir do tempo, que age muito mais rápido que se pensa. A minha beleza está dentro de mim, e olhando além do profundo dos meus olhos é que se pode encontrá-la.
Não me ofereça um encontro, desejando ter uma noite para se gabar se conseguir “me levar pra cama”. Sexo bom é sexo consentido por todos os sentidos. Estar lá apenas com corpo é atividade para bobocas, e eu não tenho tempo para isso, prefiro brincar sozinha, pois já conheço meu ritmo.
Estou cansada. Absolutamente exausta. Não sou “Amélia”, mas sei que sou mulher de verdade!!
Não se aproxime de mim se seu “pintinho” ficar encolhido dentro das calças diante de uma mulher forte, extrovertida, alegre, inteligente, que sabe falar de todos os assuntos. Que chora, que sente insegurança, e que também tem crises de TPM. Que já se deu mal muitas vezes e ainda assim sonha em se casar, sem que isso signifique se anular, é claro. (Eu não caio mais nessa!).
Simplesmente eu te aconselho que pense duas ou três vezes antes de tentar, mas se você é do tipo que sabe que o AMOR é piegas, e ainda assim é o melhor sentimento do mundo; se é avesso a “fast foods” nessa área dos sentimentos. Se você sabe ser profundo, se ao menos está disposto a tentar, e se deseja compartilhar sonhos e não submergir a mulher às suas próprias vontades. Ah... !! Se você sabe o quanto é bom se doar; o quanto dói um coração partido; o quanto espeta a insegurança da rejeição; se você já se jogou algumas vezes, e se estatelou com a cara no chão, quando o outro simplesmente recolheu os braços, “deu de ombros” e virou as costas; e mesmo assim, ainda assim, estiver disposto a tentar... Talvez você seja quem estou buscando!
Porque é assim que eu sou:- Intensa, forte e delicada. Não conheço meios-termos. Tudo que sou e tudo que vivo é profundamente.


Lilly Araújo 15/03/16

domingo, 13 de março de 2016

ESTAR FELIZ E SOLTEIRA ME ENSINOU A SER MAIS EXIGENTE!



Em relação ao amor, hoje sou menos iludida, mas também muito mais criteriosa. Não que eu tenha desistido deste sentimento, mas aquela empolgação juvenil e até inocente já não existe mais.

O X da questão é que já vivi situações o suficiente para perceber que relacionamento amoroso não envolve só sentimento. Envolve diferenças, envolve família, envolve vizinho, cachorro, smartphone e papagaio. Dois deixam de ser dois e passam a ser um número incontável de gente, torcendo por sua felicidade ou não. Envolve paciência, pressão, frustração, desconfiança. Claro que envolve também coisas maravilhosas, como vida compartilhada, companheirismo, afeto, amor, confiança.

Eu me lembro muito bem quando eu tinha 15 anos e sonhava em namorar. Achava que era o melhor que me poderia acontecer na época, mas não aconteceu… Fiquei frustrada, mas fui levando. Quando eu finalmente tive um relacionamento mais profundo posso dizer que a vida me deu um tapa na cara.
Namorar não era nada daquilo que eu criava fantasiosamente. Não fiquei amarga ou desesperançosa. Fiquei realista.

Hoje, após alguns relacionamentos profundos e aos 27 anos, eu vejo o quanto ser solteira representa liberdade e aprendizado pra mim. Não tenho medo de ficar sozinha em casa em pleno sábado à noite. Não tenho medo de ir a eventos sociais sem um cara a tiracolo. Eu construí a vida com os meus passos. Um atrás do outro, aos trancos e barrancos. Mas hoje eu sou eu. Natália. Quem entrar na minha vida não será o protagonista pois a protagonista já existe. Quem entrar na minha vida se tornará referência e não a coordenada. A recíproca, é claro, é verdadeira.

A questão é que as frustrações me ensinaram a me amar mais, a valorizar mais meus momentos comigo mesma. Estar feliz e solteira me ensinou a ser mais exigente. E alguém para adentrar no meu mundo tem que fazer por merecer. Se ficar com joguinho, se ficar com palavras fartas e atitudes vazias eu, simplesmente, perco o interesse.

Eu gosto tanto de escrever, eu gosto tanto de estar e conversar comigo mesma que não dá pra trocar isso aqui por um “Oi, gata” ou pior: “Oi, sumida” sendo que sumida eu nunca fui. Não dá para trocar assistir Downton Abbey na Netflix por uma conversa superficial ou sem afinidades.

Só vai entrar na minha vida quem realmente merecer. Porque vida é mais íntimo que quarto, vida é mais íntimo que cama. As pessoas costumam relacionar intimidade com sexualidade. Mas intimidade é sonho, é medo, é esperança, é falar do passado, da infância, é planejar um futuro, é olhar juntos para a mesma direção. Intimidade requer tempo, requer dedicação, requer interesse profundo. Intimidade é oposto de superficialidade.


Intimidade não é saber a cor da calcinha ou do sutiã. Intimidade é saber a cor dos sonhos, a cor dos olhos quando choram, a forma exata dos lábios quando sorriem. Intimidade não é ver alguém de lingerie… Isso você pode ver a qualquer momento, com alguém que você conhece há muitos anos ou há poucas horas. Intimidade não é ver alguém se despir das roupas. Intimidade é ver alguém se despir das barreiras, dos medos, das suas verdades incontestáveis, das suas certezas absolutas. Intimidade é a entrega, mas não a entrega do corpo. Intimidade é a entrega mais difícil: a entrega da alma e do coração.
******************************

Por: Nat Medeiros – Via: Superela –  (Superela é uma plataforma capaz de fazer as mulheres mais felizes, tudo de especial sobre Amor, Sexo, Vida, Beleza e Estilo! Mais textos incríveis em: Superela.com

Fonte

sábado, 12 de março de 2016

Sonhos e lendas


Sonhos e lendas

Bem, é bem verdade que eu adoro filmes de lendas e fantasias, como “O Senhor dos anéis”, de Tolkien, ou ainda “Nárnia”, de seu amigo C.S. Lewis, e ainda outros filmes ou livros desse mesmo gênero. Mas já faz algum tempo que não estou vendo ou sequer lendo nada desse tema, daí minha admiração ainda maior com meus sonhos...
Semana passada eu sonhei que tive uma filhinha loira dos olhos azuis, até aí nada de extraordinário, mas acontece que tanto seus cílios quanto algumas mechas de seus cabelos eram coloridas, como um arco-íris!! (Sim, você leu direito: Cílios de arco-íris!).
E hoje acordei sobressaltada, além de ajudar um animal em perigo, numa estrada escura, estando eu sobre um automóvel em movimento (dirigido por outra pessoa, claro), ao conseguir resgatá-lo percebo que não se trata de um animal comum, e é nada mais, nada menos, um espécime de UNICÓRNIO.
Ok! Vou pesquisar sobre eles e descubro uma íntima ligação entre esses seres e o arco-íris...
Ah, e para finalizar, eu e essa pessoa, que era do sexo masculino mas não identifiquei, terminamos fugindo do local, dentro de um caixa de madeira flutuante içada por um conjunto balões coloridos, bem ao estilo do desenho “UP”
Conclusão: — Ainda bem que estou lendo o livro sobre simbolismos e sonhos do Jung, intitulado “O Homem e seus Símbolos”, acho melhor me apressar nele. Rss!

*Lilly Araujo - 12/03/16

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·         http://mundonarnia.com/


terça-feira, 8 de março de 2016

Artimanhas



Artimanhas

Há na felicidade uma pitada de malícia.
Ela é mulher madura!
Daquelas que já sabem tantas artimanhas
e outros tantos ardis...

Há de se conquistá-la com muito cuidado,
mantendo-se sempre os dois pés presos ao chão,
e um de cada vez ao próximo passo,
ou, apenas se jogar frente a um abismo.

Há na mão da felicidade uma bebida
quente e inebriante,
talvez como se diz ser o cálice de absinto,
e não prová-la, é anular o estar vivo.

Há em seus braços um ninho!
Com plumas brancas e suaves,
e talvez, quase sempre,
também muitos espinhos.

Essa tal felicidade é “metamorfa”,
e um dia tendo-a encontrado,
nunca se saberá qual seu rosto
na próxima vez.

Para reconhecê-la, então,
é necessário usar todos os sentidos,
e um pouco de insensatez!


Lilly Araujo 08/03/16  (20:30h)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Poema inquisitivo




Poema inquisitivo

Para que falar de amor,
esse sentimento ufano,
tão triste e às vezes
tão desumano ?

Para que dizer o que se passa,
se ninguém há de ouvir,
e se ouvindo por acaso,
apenas há de sorrir...?

Para que sonhar,
desejar, relembrar,
revirar-se na cama debalde,
se tudo isso parece um ledo engano,
apenas uma fraude ?

Não sonhemos mais,
não entristeçamos os olhos
com esse sentimento atroz,
que revira o peito sem piedade
perguntando por “nós”.


Lilly Araujo 24/02/16 (13h)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Enlace matrimonial


Enlace matrimonial

Acordar!!!
E estar viva sob a água tépida e intrusa
e bem-vinda!
Essa, que caminha sob os poros eriçados
do meu corpo desnudo.
E senti-la em cada curva percorrida,
como convite a um mergulhar profundo...

E sobre a minha tez descer o líquido,
quase um néctar do paraíso,
a escorrer pelo canto da minha boca,
e cair em cascata, pelos picos dos seios,
ao encontro do lago, que agora se forma
entre as coxas cerradas uma contra a outra.

Desse lago escutar enfim, as vozes
das ninfas e sereias que habitam ali
quase em silêncio proibitivo.

E respirar o vapor denso no ar,
e estar viva.
E me pertencer! E ser minha!
Mente, corpo, espírito e alma.
E me levar até o altar com calma...

E me encarar e sorrir, e me
inebriar com o cheiro do jasmim,
e dizer: — Sim!

Lilly Araujo 21/02/16 (8:00 Am)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Vai passar


















Vai passar


Vai passar!!
Nos tropeços das teclas,
nos soluços das lágrimas,
eu digo a mim mesma
que vai passar...

No vazio impreenchível,
da esperança desesperada
daquilo que nunca chega,
e nunca se vai de vez,
eu digo que vai passar...

Vai passar?!
E se passar?!
E quando passar?!

O que fica de mim,
que não seja essa eu
aguardando você regressar?!

Vai passar? !
E passando, o que resta de mim
é um ser desconfigurado
que não sei aceitar.

Vai passar!
E se passar,
e quando passar,
— o valeu a pena?

O que se deve pedir bis?
O que foi sonho?
O que foi paraíso?
Pra onde aquele cheiro?

E se no fim, tudo passa,
então para quê tudo isso??


Lilly Araújo 27/12/15  (12:39h)

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O embrulho

















O embrulho

Eu sei que sou bela!
Possuo uma beleza singela,
às vezes chamada de anjo,
às vezes com cara de sapeca,
às vezes, até sedutora,
— Por que não?

Eu sei que possuo uma
casca incrementada,
acima da média, apesar de
bem abaixo do ideal.
É uma casca sim, e mais nada!
E é onde minha alma habita prisioneira,
muitas vezes com vontade de voar...

Viva o culto à beleza!?
— Sim, vivamos, e
deixemos de falsas modéstias!
A beleza está aí para ser aprovada,
reprovada, procurada, lapidada...

Mas, antes de me despirem as roupas,
por onde andam os olhos
dispostos a ir além?

Essa casca de porcelana, tão frágil,
tão ínfima, tão momentânea,
é só um “embrulho” mais adornado,
de um ser que vive e que pulsa
num silêncio não deflagrado.

Um SER que É!
E sendo, tem sede de gritar:
— Ei, estou aqui dentro,
quem pode me encontrar?!


Lilly Araujo 14/02/16

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Ufania

















Ufania

Não te quero!
E quero!!
Na mesma direção
oposta do insano.
E te idolatro, no culto
essencial ao profano.

És santo. És noite e dia,
e lua, e nuvem,
e chuva de querer bem.
Esperança nascida
no Menino de Belém.

És a vinda inesperada
e a partida sem retorno.

Sou porto sem chegada,
e carnaval sem adorno.

Lilly Araújo 12/02/16 (00:53h)


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Eu gosto da noite



Eu gosto da noite


Como não gostar da noite?
Se só ela me presenteia com seu silêncio ímpar
que se mascara de ruídos discrepantes
da loucura que me fere os tímpanos
no decorrer do dia.

Como não gostar da noite?
Se nela há paz para meus olhos
na penumbra que rechaça toda a minha loucura
e que disfarça as pálpebras inchadas
das lágrimas que sempre me visitam.

Como não gostar da noite?
Se quase todas as poesias nascem nela,
embaladas na sua melodia hipnótica
que dita as notas para se dançar,
para se compor, para se viver,
e para se morrer.

Eu gosto da noite!
Como não gostar?
Se à noite, em sonhos,
é quando tu retornas
para me amar.

Lilly Araújo 03/02/16


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Tudo outra vez


<< Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada. >>
Hilda Hilst
Tudo outra vez

Este ano te deixei em paz até hoje.
Hoje que já são dia 03
do segundo mês.

Nenhuma intervenção
no seu cotidiano,
nenhum toque ao seu telefone,
nenhum cutucar nas redes sociais.

Este ano de 2016
me concentrei em coisas várias,
em diversos afazeres ...
e planos ... e devaneios...
e em cada uma delas,
encontrei um motivo qualquer
pra me lembrar de você,
ou do ‘não você’ em minha vida,
há tanto tempo...

Este ano me custou disciplina,
e o exercício constante
de lembrar de te esquecer.

Mas hoje,
como um ébrio que volta ao vício,
esqueci todo exercício,
e me debrucei
sobre a arte de te caçar...

Assim é o desejo:
— lava, vulcão, pó, nada...
e depois tudo outra vez


Lilly Araújo 03/02/16

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Eu sei, mas não devia



Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Sem se perder a doçura


Sem se perder a doçura

Há de se conseguir ficar mais sóbrio
sem se perder a doçura.
Há de se aceitar os momentos amargos,
sem contudo se entregar à amargura.

Há de existir um equilíbrio
entre a tênue linha do racional,
e o mundo pueril,
esse:- cor-de-rosa e ficcional.

Há de existir, em algum canto escondido,
um olhar que não nos meça
com trena e compasso,
e onde a beleza caiba dentro de um abraço!

Há de existir um lugar
onde não seja sol escaldante,
nem afogar nas tempestades,
um mundo, ou submundo,
onde Amor possa ser de verdade.

Há de haver!
Eu hei de ver!
Esse lugar que inventei em meus sonhos,
e que um dia, por sorte,
acabo encontrando, ou então,
hei de morrer tentando.


Lilly Araujo 23/01/16

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Aula da natureza


"As folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes"
Manoel de Barros

Aula da natureza

As árvores sabem ser outono,
as folhas sabem cair sem alardes,
os galhos sabem ficar desnudos
e suportar o vento frio sem chorar,
porque conhecem as estações
e acreditam que o verão irá voltar,
também a primavera ‘multivida’,
e estão preparados para
o inverno gélido e impessoal.

Os galhos sabem aguardar,
e o fazem sem murmúrios, e
com grande resignação...

Sorte dos galhos, que não
sabem o que é ter no peito
esse insano coração!

O coração não sabe ser outono,
não admite ser inverno,
só quer viver do calor de verões,
e do perfume das primaveras.

O coração faltou
à aula da natureza.

Lilly Araújo 14/01/16 (9:29h)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Estou chuva


Estou chuva

Eu estou chovendo de novo!
Sou janeiro.
Sou verão.
Sou essa densa estação...

Estou chovendo
de minuto em minuto,
desse tempo que nunca para,
com essa dor que nunca sara.

Estou céu cinzento.
Melancolia, raios e trovões.
E rabisco o infinito de minhas solidões.

Estou criança amedrontada
e cachorrinho encolhido,
escondido no canto da sala.

Porque estou chuva!
Céu sem sol,
sem calor,
sem raios e sem fulgor.

Estou chuva
sem arco-íris,
canção de uma só nota musical,
nesse cantarolar que me faz tanto mal.



Lilly Araújo 11/01/16 

(19h)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Caixa de Pandora


Caixa de Pandora

Eu te coleciono,
como se cada peça tua fosse minha,
e fizesse parte do meu ser.
Eu te coleciono a cada imagem,
a cada sorriso,
em cada novo amanhecer.

Eu te guardo
na minha Caixa de Pandora,
e a abro todos os dias,
sem ter medo de morrer.

Eu te sorrio e te choro
na mesma lágrima
e na mesma gargalhada,
porque já não sei
se és riso ou pranto.

E quando vens,
em nuvens, em sussurros,
em imagens ou lembranças,
eu me lembro que já morri,
quando de mim
se foram todas as esperanças.

E eu sigo a colecionar-te
em fragmentos revoltos.
Tua imagem sorridente e
teus cabelos soltos.

Ah!... Aqueles fios entre meus dedos,
e meus dentes entre teus dentes,
e o teu ser em minhas entranhas...

Eu te coleciono,
nesse forma de continuar viva,
dessa maneira tão estranha.


Lilly Araújo 09/01/16

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Cunhada no aço

Cunhada no aço

“This is Sparta”!
 E eu não vejo os meus 300...
O poço à minha frente...
O inimigo me espreita!

É curvar-se para sempre
ou morrer.
O cenário é esse,
sem ter para onde correr.

“This is Sparta”,
E eu meto o pé sem titubear...
Agora é a queda,
o poço,
a água,
o grito, a terra e a lama.

Derrubo com a fúria
da esperança de resistir,
sem saber como ou até quando...

Mas aqui é Esparta!
E eu fui cunhada no aço,
treinada para lutar.
Todo dia me despedaço
para depois me remendar.

Eu sou de Esparta,
com minha lança e minha espada,
minha coragem e meu broquel,
e sigo marchando,
em busca do paraíso ou da glória.
À procura do próprio céu.

Lilly Araújo 08/01/16
 12:30h

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Birra



Birra

Hoje estou indo de cappuccino gelado,
apesar do clima ameno, quase frio,
não quis tomá-lo quente,
não é disso que estou precisando pra me aquecer...
Vou de gelado, como alguns dias são...

Hoje esse sabor que tanto adoro
vai entranhar-me frio,
vai gelar-me toda por dentro,
ou não...

Porque o “calor da vida”,
aquele que flameja até no olhar,
não é de uma xícara de café
que eu vou retirar.

Hoje eu vou de gelado,
dentre todas as contradições
que há na existência,
essa é apenas mais uma,
que estando tão gélidos os meus dias,
eu dispense uma xícara de café quente...

Isso é só mais um protesto,
só mais uma birra,
dessas que dá na gente!


Lilly Araújo 07/01/16

(10: 30h)
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